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ESPERAS AZUIS...


Guerra e Paz - Portinari

Pshiu! Silêncio! Ouve...
É a quietude do azul que precede a tempestade. O céu está pesado e logo vai desabar lavando tudo.

Sempre que chove minha alma se azula e as águas de março chegaram para começar a fechar o verão na cidade. Talvez por isso a chuva esteja se insinuando também em mim. De forma intermitente, é bem verdade, mas trazendo o anúncio de que desacelerar é preciso e, por esta razão, as coisas vão se tingindo aos poucos de azul. Há uma serenidade pungente nessa cor.

Esparramada nela a tranquilidade não quer sair de casa, escolhe a calidez dos afetos garantidos em cobertores íntimos, tentativas vãs de equilibrar o frio que costuma assolar quem se dá conta de que não tem o poder de controlar suas próprias intempéries.

Tem vez que é assim também com o pensamento. O bicho empaca feito mula teimosa. A gente acha que esvaziou e aí cai num imenso vácuo. Escrever, para além de exercício intelectual, é mergulho profundo. Quando escrevo, me organizo, e esboço um princípio de compreensão, impossível na rapidez das palavras faladas ou no silêncio do que não ousa sequer transformar-se em ideia.
Carlos Pena Filho. Poemas
A cor mais quente

As artes estão cheias de azuis. A Liberdade é Azul para Krzysztof Kieslowski e para Abdellatif Kechiche, O Azul é a cor mais quente. Há céus azuis, olhos azuis, águas azuis, valsas azuis. Há Picassos, Portinaris e poemas azuis. É, uma Pena, Filho, que o inevitável fluxo da vida nos atropele, impiedoso. Morremos vivos, “...e afogados em nós, nem nos lembramos que no excesso que havia em nosso espaço pudesse haver de azul também cansaço...”. Os teus sonetos me desmantelam ainda mais, Carlos, querido, sobretudo quando me convenço de que desmantelar-se é preciso para que novas coisas se possam edificar. Azul é cheiro salgado que invade entranhas como o locatário fiel da tristeza, proprietária dos cômodos vazios.

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Há no azul a calma redenção de um choro que dispensa explicações. Talvez o segredo da sua tranquilidade seja este: ele nos desarma e oferece uma intimidade generosa que é como a permissão para espalhar-se sem reservas. O azul alenta porque é hábil em guardar segredos, conseguindo ver almas nuas sem lhes provocar constrangimento. Existe uma troca de confidências muda nessa presença cheia de pujança. Algumas confissões só são possíveis em mergulhos azuis. O tempo pode ter muitas cores no seu curso mas, quando ele passa, azuleja tudo. Saudades são azuis. O inalcançável é azul.

Não se engane pela aparente frialdade - esta é mesmo uma cor de contrassensos. Eu sigo inquieta sem resolver a equação que embute acolhimento na frieza mas o azul está aí para jogar na minha cara essa capacidade de resolver problemas difíceis, esfriando, com tepidez, os calores das inospitalidades.

Ainda não descobri qual a cor das transformações mas de uma coisa já tenho certeza: azul é a cor da espera. Que tal aproveitar o ensejo do recolhimento que essa época do ano inspira na preparação de novos e pleonásticos renasceres? Esperar é arte. Arte tingida em azul profundo. Aqui no Papo as transformações já começaram a acontecer. Repararam?

Pshiu! Silêncio. Ouve...


até semana que vem.




Imagens: Google

ESPERAS AZUIS... Reviewed by Cris Quintas on 09:12 Rating: 5

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