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UM CONTO PARA CONTAR O TEMPO


“Um dia ela saiu de casa pra Londres. Queria encontrar o Big Ben para, a partir dele, marcar seu novo ciclo.”

De baixo olhou os ponteiros que lhe diziam, imperativos: o tempo, menina, é todo seu. Faça o que quiser com ele. Naquelas semanas este era o seu bem mais precioso.


Andou pela Victoria Street, pelas margens do Tâmisa, pelas pontes. Entrou em parques forrados de dourado, que era outono. O seu tempo lhe pertencia e ela não precisou negociá-lo pela primeira vez em muitos anos. Na sua casa, primavera. Quis ir para longe ver as folhas caírem e bagunçarem o chão. Folhas voando. Livres. Suas folhas. Nua. Seca. Ela. Sozinha pela primeira vez. A sua estreia no seu mundo. Cheia de pronomes possessivos. Tudo é meu. Eu sou minha.

Entrou na fila do Olho. Queria ver tudo de cima. Avaliou os preços. Seu tempo custava dez libras a mais na roda gigante que olhava Londres até o infinito que ela nem conseguia alcançar. Dez libras esterlinas a mais para ver, sem esperas, uma tarde dourada de sol em Londres. O vendedor fez que não valia a pena. A fila regular estava curta. Curta, mas ainda assim demandaria dela uma espera. Um homem que morava em Londres lhe dizendo que gastar mais de hora em esperas não valia o que era cobrado. Ele via Londres todos os dias. Ela só tinha uma semana pra olhar. Quem aquele vendedor pensa que é? O tempo é meu. Meia hora de fila para comprar um ingresso. Mais meia hora ou quarenta minutos de fila para aguardar a vez. Nunca seu tempo havia custado tanto. 

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Naquela hora e pouca de espera caberia o exorbitante desperdício de cafés, fish and chips com maionese, um cookie saboreado na grama da Abadia de Westminster, o sopro de um vento frio na margem do rio, uma prece. Não titubeou. Não esperar custava apenas dez libras a mais. Pagou sorrindo o ágil e teve muita pena de quem colocava suas esperanças (do verbo esperar) na ilusão de uma economia. Pegou seu ticket expresso e entrou pela entrada expressa, expressamente satisfeita com a sua decisão.

Seis meses depois de voltar pra casa ela entendeu porque escolheu começar sua viagem ao centro da terra dela mesma por Londres. Relógio marca tempo. Relógio marca. Tempo. Tempo passa. Ela passa. Ela decide. O tempo é dela. Aquela era uma viagem no seu (dela) tempo que o Big Ben precisava testemunhar. Viajar para o Big Ben devia ser muito mais complicado do que para ela. Generosa, tomou o avião e foi encontrá-lo para começar novas contagens.”

No Papo Cabeça de hoje, imagens de relógios anônimos e famosos, inspirações para contar e  gastar o tempo com sabedoria e prazer.


Até semana que vem.

Cosmo Clock 21

Yokohama, Japão



Face of the Astronomical Clock, in Old Town SquarePrague.
O relógio de Hugo Cabret
Relógio Nerd


Fontes:
Google imagens


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UM CONTO PARA CONTAR O TEMPO Reviewed by Cris Quintas on 07:00 Rating: 5

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