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CONTOS DO AMAR DEMAIS - Nº 1


O primeiro texto da série ‘Contos do Amar Demais’ foi inspirado na tela mais famosa de Klimt, para abrir o mês dos namorados com uma voadora de dois pés na caixa dos peitos. Como sempre, eu adorei fazer, e estou torcendo para que você sinta, ao ler, o mesmo tesão que eu senti escrevendo.


O Beijo

Protegidos das trevas eles se ocultavam da realidade mutuamente. O contraste entre a claridade que emanava nos encontros dos dois e o entorno sombrio era arrebatador. Não havia profundidade fora deles. Nada tinha graça ou cor. É seu brilho dourado que diafaniza o mundo no qual estão inseridos. Encontram-se em lugares atemporais, em horas incapazes de se aferir com ponteiros. Não obedeciam lógica. Se distantes, uma volta de sessenta segundos é milenar. Se juntos, as setas malditas giravam em espirais velozes.  

Debaixo daquele manto tudo era sagrado e fulgurante. A felicidade morava ali, naquela área restrita. Felicidade não é coisa de se espalhar. Vive espremida em pequenos espaços. Tratavam, por isso, de fazer do manto um lugar de ofertas e regozijo. Nada os atingiria. Vestidos de ouro tudo se justificava. Não há pecados em vestimentas de amor. Nenhuma nudez será castigada. Os amores, mesmo os ilícitos, serão sempre nobres. 

Estão subjugados, os dois. Ela, de modo explícito, ajoelha-se e mostra que lhe pertence, serva dócil e obediente. Ele, por sua vez, cobre, constrangido, sua devoção, mas está obviamente ajoelhado, adorando-a. Na cabeça ele veste a coroa que ela teceu com folhas e com a qual o entronizou rei dos seus domínios, mas os machos se constrangem ao trocar delicadezas e ele reserva as que possui para devotar-lhe somente quando estão a sós. 

Apenas ela pode ver os seus amores. Ele esconde nela a face exausta. Para os homens é sempre mais difícil aceitar uma entrega. Um manga-larga machador puríssimo, adestrado, que se inclina em reverência e recolhe a cabeça dela, numa manobra de cuidado e langor. Ela mal consegue envolvê-lo, tamanha a grandiosidade do seu pescoço. Envolve-o por outras vias, mais sutis, muito mais escravizantes. Com as mãos ela lhe diz, silenciosamente: não tenha medo, e legitima o desejo que o manto esconde do mundo, mas que os aquece a ambos. Nada os ferirá debaixo da túnica áurea. 

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São lindos fundidos. O que os delimita? Onde termina um? Onde começa o outro? Impossível precisar. Esses encontros extrapolam leis físicas. Aqui dois corpos, definitivamente, ocupam o mesmo lugar no espaço, no tempo, no elemento fluido que impossibilita saber quem é quem quando se encontram. Seus líquidos se misturam. Suas ideias. Seus gestos. Falam as mesmas palavras. Pensam os mesmos pensamentos. São a materialização da sincronicidade que souberam construir.  

O seu chão é todo flores mas estão sempre perto de um abismo. A beleza se equilibrando na instabilidade. Se ele descuidar-se, ela cairá, apartada dele, e seu sofrimento será perpétuo. Por isso finca os pés inseguros na beira do precipício e, para não perturbá-lo com suas fraquezas de fêmea, concentra todo seu medo nos pés, deixando que ele disponha de todo restante dela com ternura. Se ele tem medo, não mostra. Sabe que ela lhe protegerá da queda caindo por ele na tortura do fim. E a vida cumprirá seu ciclo. Os excessos do amor matarão o sexo e eles serão felizes para sempre enfeitando as paredes do Belvedere.





Fontes
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CONTOS DO AMAR DEMAIS - Nº 1 Reviewed by Cris Quintas on 06:30 Rating: 5

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