Top Ad unit 728 × 90

CONTOS DO AMAR DEMAIS - Nº 2


Depois de abrir o mês dos namorados com o  Beijo iconográfico e eterno de Klimt, o Papo Cabeça chega à segunda semana de junho com outro texto da série ‘ Contos do Amar Demais’. Porque todas as coisas têm seus começos.




 O INÍCIO DAS UMIDADES 

As histórias que começam no inverno são mais densas. Escreve o que eu estou te dizendo.

No verão tudo é mais leve. O sol quara dores e lembranças, naturalmente, nos varais do tempo. Os afetos solares podem ser considerados quase felizes. No inverno não. No inverno os sentimentos que não se arejarem podem mofar e mofo, todo mundo sabe, expulsa amores por insalubridade.

Os chuviscos já tinham começado e enchiam de preguiça as tardes no interior. Aquela friezinha boa de depois do almoço, que empata a pessoa de ser urgente, deixava mais lenta a siesta. Não tinha trovão nem relâmpago ainda. Só promessas. Estava tudo muito no começo. Mas já tinha cheiro de terra molhada e barulho de grilo. Então havia perigo iminente.

Após longo flerte decidiram se encontrar. Já no primeiro dia ele a fez parar a caminhada e puxou-lhe violentamente os cabelos presos por um rabo de cavalo alto, exigindo um beijo. Subia a mão pelas suas pernas sem nenhuma cerimônia. Ela travou os joelhos e sua cara de assustada demonstrou que aquele approach talvez não fosse o mais adequado.

Pararam do lado da Igreja da cidade, com chuvisco e tudo. Experiente, ele reviu o seu modo de abordá-la e encheu os lábios dela de piparotes barulhentos. Mais do que o beijo, impressionou-a a sonoridade. Uma ansiedade de adolescente se afunilando numa boca sexagenária nascida em 1979. Ele era assim. De perto, 16. De longe, 61. De idade, 36. De longe, grave. De perto, moleque. De fato, homem.

Depois de pouco tempo começou a seduzi-la dizendo que já sentia amor. Ela reclamava afirmando que desse modo ele vulgarizava o sentimento. A moça era trabalhosa, cheia de sutilezas. Via cheiro nas cores, som nos sabores, barulhos nas visões. Uma vez tendo entendido minimamente as gradações que a compunham, ele começou a encantá-la, a hipnotizá-la com palavras e sons. Marinava-a com a paciência de um aluno da Cordon Bleu. Ela foi se impregnando dele.

Fizeram-se concessões mútuas. Ele gostou de suavizar sua libido com as pitadas de delicadeza que ela lhe sugeria. Ela, por sua vez, ficou curiosa com essa tal de violência consentida que ele defendeu. Prometendo ser delicado na agressão, encheu a cabeça dela com revoadas insanas de pássaros selvagens.

[post_ad]

Não existe amor sem mordidas, ele dizia, à Nelson Rodrigues. E complementava: nem sem cusparadas, tapas, arranhões. A violência é prerrogativa do amor. Mas, encantado por ela, resolveu que esperaria seus sinais para avançar lenta e certeiramente. Era vaidoso. Agora era uma questão de honra vê-la sucumbir, derrotada, no terreno baldio do desconhecido. Faria charme. Ia fazê-la provar o veneno das esperas.

Ela, que sempre comprou a ideia romântica dos afetos, seguia sem entender direito aquela necessidade virulência. Agressividade não parecia combinar com as cenas e trilhas sonoras que ela aprendeu a sonhar nos repetidos filmes de matinê do único cinema da cidade. A vida se encarregou de lhe mostrar que entre pretos e brancos há um espectro imenso de alternativas e ele teve papel determinante nesse aprendizado.

Um dia, estavam debaixo da árvore secular da praça matriz, esperando a garoa dar uma trégua, para continuarem o passeio. Nada do chuvisco parar. Depois de uma longa e torturante sessão beijos úmidos, ela, já ansiosa por experimentar as promessas e totalmente entregue, perguntou: quando você vai me comer?

Ele, vitorioso, respondeu: quando estiar.

Para ouvir: Tudo o que você podia ser, porque tem cara de dia chuvoso!




Fontes
Google imagens


MyFreeCopyright.com Registered & Protected
CONTOS DO AMAR DEMAIS - Nº 2 Reviewed by Cris Quintas on 06:30 Rating: 5

Nenhum comentário:

All Rights Reserved by Papo de Design © 2014 - 2015
Powered By Blogger, Designed by Sweetheme

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Papo de Design. Tecnologia do Blogger.