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CONTOS DO AMAR DEMAIS Nº 3


Quando o amor toma liberdades ou
 É dando que se recebe.

Lá pelas tantas da vida a gente se dá conta de que o amor tem muitas facetas.
Ele não é só romântico, só ideal, só físico, só químico ou só biológico.
O amor é esse negócio coisado, cheio de coisa coisante, que ninguém consegue explicar. Mas quando é amor, é. E pronto.
Com vocês o terceiro texto da série contos do amar demais.

Eis que finalmente chegara o mês dos namorados. O primeiro que passavam juntos.
-Amor, o que tu vai querer de presente?
-Sua bunda.
-Vai, amor, fala sério. Me diz uma coisa que você não tem ainda.
-Sua bunda, já disse
-Mas isso eu já lhe dei.
- Não, senhora. Você me deixou usar uma vez. Emprestou. Mas emprestou com uma avareza... não foi uma doação verdadeira. Foi um aluguel. Quase um favor.
-Escolha outra coisa. Algo concreto.
-Mas a sua bunda é concretíssima. Poesia concreta pura.
-Não vai responder, não é? Sempre sinuoso. Me dá algumas opções, vai.
- Não vou dar opção nenhuma. Me surpreenda.

Filho da mãe! Esse era o tipo de resposta trabalhosa que só reiterava sua certeza: ele é exigente e vai me testar.
Os encontros dos dois eram quase sagrados. Havia rituais que eles cumpriam com muita disciplina. Disputavam para saber quem agradava mais. Ela adorando servir seu macho. Ele adorando a subserviência que ela lhe oferecia como dádiva. Se misturavam, se lambiam, se batiam, se lanhavam. Tinham já seus códigos, as permissões lícitas e ilícitas. Dentro dos dois havia um universo de intercessão. Juntos eram imbatíveis. Incomparáveis.

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Às vezes ele trazia peras. Retirava as cascas com esmero. Só gostava da polpa. Um dia, ela, displicentemente, comeu o que ele desprezou. Preferia também a polpa mas gostou de fazê-lo ver-lhe comer seus restos. Assistindo à cena, ele, generoso, feriu a fruta de modo a deixar mais polpa na casca e deu-lhe na boca as fitas verdes que pendiam entre o fio da faca e a ponta dos seus dedos. Ficou excitadíssimo com sua devoção de gueixa. Ela recebeu aquele gesto como quem ganha pepitas de ouro.

Já tinham se dado mimos vários. Nada fora do comum. Essas delicadezas de pombinhos arrulhando nos inícios dos amores. Chocolates, livros, cds, frutas. Ele era certeiro. Um dia trouxe uma atemoia, dulcíssima, que provaram juntos pela primeira vez. Por isso ela não queria falhar. Sabia que as sensações são os melhores presentes. Os únicos que não perecem.

Gastou dias pensando exaustivamente no que lhe oferecer. Por fim decidiu-se. Comprou uma garrafa de Amarula. Dispensaria o licor nos seios para ele sorver. Desse modo ele teria, no álcool, os prazeres da vida adulta e, no peito, o acalento edipiano do primeiro amor.

Chegou o dia.

Ela trouxe a garrafa e lhe explicou seus comos e porquês.

Ele trouxe um pacote pequeno.

–Manteiga?
–Não. Liberdade.

E dançaram o Último Tango em Paris



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CONTOS DO AMAR DEMAIS Nº 3 Reviewed by Cris Quintas on 09:41 Rating: 5

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