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CONTOS DO AMAR DEMAIS Nº 4


O papo está em clima junino.
Eu mergulhei na construção desse conto totalmente envolvida pelos sentimentos que contagiam o nordeste do Brasil nessa época do ano. Ele foi escrito ouvindo Orquestra Armorial e a linda 'Noite Severina', de Lula Queiroga e Pedro Luis, ilustrada numa animação delicadíssima que a gente linkou no final, para vocês verem que nem só de forró vive o amor no sertão. 

ALUMBRAMENTOS

Zé olhava Severina com aquele olhar encompridado do desejo que não acerta virar palavra. Gesto não ousava. Estava mais longe disso que crença em açude cheio. Os sentidos dele não se concatenavam na presença da moça, mesmo ela estando distante.

Não entendia. Ele, valente de tudo, boiadeiro com sangue nos olhos, virava uma rês desgarrada quando dava fé na réstia de luz que vinha com o cabelo dela. Só acertava olhar aquela beleza imensa na lonjura. Se passasse perto mais um pouco, baixava a vista, virava a cara, acelerava o passo no chão de barro vermelho. A palavra vinha até a goela, ameaçava uma saudação besta, mas voltava para perto das tripas junto com a coragem.

A moça falava pouco. Ria menos ainda. Era quieta, quase nem tinha sombra. Existia, ela? Uma pessoa com cabelo de ouro devia ser assombração ou visagem de calor muito. Tudo se borrava nas suas passagens. O chão derretia a imagem dela. O amor derretia o juízo dele.

Era quando o sol começava a amolecer os castigos que ela vinha lavar roupa na beira do riacho, com a trouxa coroando sua realeza. Zé ficava atocaiando para ver a formosura daquela hora de morte e vida. Então ele apeava do cavalo, amarrava o bicho num pé de juá e ficava de cócoras, atrás de uma moita. Severina dava um nó na barra da saia e exibia as pernas finas, crente na solidão absoluta. Ninguém gostava de lavar pano no fim da tarde porque demorava mais para quarar. Só ela ia. No saber dela, pano que quara em sereno tem mais cabimento para alvura.

O dia se aquietava para ver ela bater os molambos nas pedras enquanto entoava loas e castigava a inhaca entranhada nos tecidos pelo calor das noites sem vento. Os filetes salgados do seu esforço invadiam o decote enfeitado de sianinha bem onde os dedos de Zé intentavam ir e as costas das mãos brancas enxugavam o orvalho na testa da menina. Tinha pérolas enfeitando o sorriso. Naquele lugar só com gente de boca cheia de oco ver aquilo era raridade, benção de chuva em dezembro. Tinha disso lá na roça não. Só ela tinha. Só ela, somente. Só ela. Mais ninguém.   

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Severina sabia fazer arco-íris. O sol batia na chuva que ela levantava depois de acabada a labuta e tingia o ar. Jogava água para cima. E girava de braços abertos, carrossel iluminando quermesse. A alegria dela era a maior lindeza que ele já tinha visto. Quando ela mergulhava e demorava para voltar à tona, zé se agoniava. Teve uma vez em que quase entrava n’água para buscar ela de volta. Mas Severina voltava sempre, tirando dele o enlevo de encarnar seu salvador. Quando ela subia, ascensão de santa, ele baixava os olhos. O vestido agarrava no couro dela, véu úmido exibindo as formas que a secura escondia. Não aguentava tanta beleza. Morria se sustentasse a visão.

Depois de espalhar os panos abertos no mato para a quaração, ela se deitava esperando a lua nascer. Ficava ali, deitada no verdor das ondas que o vento fazia no mato. Zé ficava esperando que ela flutuasse mas só a voz dela alçava voo. Ela assobiava imitando os passarinhos na arribação. Nas noites sem luar ela contava estrelas, apontando. Ela podia apontar, que nela feitiço não pegava. Ter berruga é coisa para gente sem luz. Severina era um candeeiro.

Ali, vendo ela vagalumear a hora mais bonita do dia, Zé se curava das feridas da lida e repassava o plano que cuidou de fazer, desde a primeira vez que viu a moça: no São João, compro dois bilhetes da roda gigante, chamo a anja para ver os fogos riscarem o céu e pergunto se ela é de verdade.




Fontes:
Foto obra artista J. Borges
Música Lula Queiroga e Pedro Luis e a parede



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CONTOS DO AMAR DEMAIS Nº 4 Reviewed by Cris Quintas on 14:57 Rating: 5

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