Top Ad unit 728 × 90

GERAIS

Foto: Paulo Carvalho

Eu, se não fosse pernambucana, seria mineira. Certeza. Tem umas coisas naquelas terras que me atraem sem que eu saiba direito explicar. Um aconchego, uma fala assim arrastada, que termina sem terminar e se enrosca pela perna, feito um gato dengoso, convite para entrar e comer bolo acabado de sair do forno, com café passado na hora.

Tudo o que a gente quer no inverno é a sensação de algum acolhimento e Minas sempre me deu a impressão de ser capaz dessa generosidade. É por isso que, esse mês, aqui no Papo, vamos viajar por lá. Viajar na música, geografia, arquitetura, comidas, literatura. Viajar no tempo e no espaço que parecem assumir dimensões muito particulares naquelas terras.

Eu sei que um mês para explorar Minas é muito pouco. Sei que Minas pede calma nas viagens, andares em compassos diferentes do resto do mundo. Também sei que há coisas espetaculares que não serão contempladas nesse mês de imersão e por isso já vou pedindo desculpas antecipadamente. É que preciso fazer uma confissão. Nunca fui à Minas. Nunquinha da silva. Mas Minas tem vindo a mim tantas vezes que lá eu me sinto em casa sem jamais ter tido a honra de pisar aqueles chãos.

Minha Minas é a que idealizo e talvez por isso ela não corresponda às Minas de outras pessoas. A literatura me presenteia com a possibilidade de usar dessas licenças poéticas. Sou romântica, vocês estão carecas de saber. E, por falar licenças poéticas, em que outro lugar do universo Drummond poderia ter nascido? Que tal dar partida no mês com um micro conto inspirado num poema dele? A Máquina do Mundo foi considerado o melhor poema brasileiro de todos os tempos. Vamos começar nossa viagem?

[post_ad]

PARA CARLOS, MINEIRO.
COM AMOR, RECIFE

Eu era um aspirante a poeta que queria, por fim da força, a liberdade de não ter cabimento. Pensava que a precisão da ideia não pode render-se à forma sem se comprometer e, com isso, ia alentando minha incompetência de menino fátuo.
Fui para Minas provar minhas teorias. Bebi, fumei, trepei, andei na esbórnia simulando o romantismo frouxo das Noites na Taverna. A juventude tem dessas arrogâncias inocentes de querer mudar o imutável.

E lá estava ele, com as tais mãos pensas. Vi a sabedoria escondida atrás dos óculos. Magro, elegante, reservado. Um semideus em seus domínios. Ruas, pedras, aves, sinos religiosos e pagãos- tudo lhe pertencia. Eu me ajoelhei e pedi perdão.

- Levanta-te, menino. Há muito o que fazer. Semideuses não sujam as mãos para produzir pedregulhos. Mas grandes pedras não se sustem em pé sem o calço das menores. Olha o mundo. Olha a máquina. Olha as misérias. É assim, aglutinando tudo, que, talvez, te engrandeças.
Olhei o mundo. Olhei a máquina. Olhei as misérias. Olhei a minha imperfeição e vi quão ignóbeis eram as justificativas que eu forjei para validar minha humanidade. Ele então me disse, grave e sábio: foi reconhecendo minhas vilanias que virei semideus. Deixa-te engolir enquanto andas e sentes essas Minas. É do refluxo que nascem os poetas. 

Foto: Paulo Carvalho
Serra Mineira. ( Paulo Carvalho)

Foto: Paulo Carvalho

"Durante anos fotografei Ouro Preto do mesmo local, do mesmo ângulo. 
Esta foto tem mais de 20 anos." Paulo Carvalho.
Fontes:
fotografia Paulo Carvalho



MyFreeCopyright.com Registered & Protected
GERAIS Reviewed by Cris Quintas on 07:00 Rating: 5

Nenhum comentário:

All Rights Reserved by Papo de Design © 2014 - 2015
Powered By Blogger, Designed by Sweetheme

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Papo de Design. Tecnologia do Blogger.