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UM CERTO SENHOR TIMOTHY

Foto: Paulo Carvalho

Essa história de ter escolhido um mês para viajar por Minas está me pirando. Eu sigo imersa em tentativas de entender as sensações visceralmente misturadas que separei para poder melhor aproveitar o que me encanta, mas dá até medo, sabe? Uma viagem abstrata, que está acontecendo apenas nos meus pensamentos, nas coisas que sinto, nas minhas idealizações. Experimentações totais de liberdade das quais me orgulho, impossíveis em outra plataforma que não as da abstração. 

Foto: Paulo Carvalho

Viagem boa é viagem sem roteiro engessado, sem as obrigações algemadas do fazer. Poder demorar-se mais onde o coração mandar, não descer o pensamento nos recantos que nada despertam, dar ré para rever preferências, tirar cochilo em vilarejos sossegados, encher a cara de cachaça mineira e dormir numa rede sem relógio tiquetaqueado. Isso para mim é viajar. Capaz de ser esta a razão pela qual essa viagem, mesmo sendo abstrata (ou talvez até por isso mesmo) me seja tão cara.

Para contemplar a literatura nessas Gerais, andei por ruas de pedra, de mãos dadas com Drummond, desejosa de sentir o mundo. Faltou Guimarães Rosa e suas veredas neologísticas? Pois Minas ainda presenteou a gente com Ziraldo, Otto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos, os Fernandos Sabino, Morais e Gabeira, Adélia Prado, Rubem Braga, Mário Prata, Ruy Castro e mais um bocado de inacreditáveis nomes aqui representados por seu Carlos, o poeta. Depois fomos ouvir as esquinas e seus meninos com voz de Deus, em longas viagens de trem por paisagens sonhadas. Mas é de lá também que ouvimos o pessoal do Jota Quest, Skank e Pato Fu. A bronca é que escolhas excluem, já dizia minha vó, e eu sabia que viajar é também sentir a dor imensa de deixar de lado outras coisas caras, mas não se pode ter tudo nessa vida.

Acontece que, das coisas inacreditáveis que há para ver em Minas, tem um lugar, batizado pelos mineiros com aquele jeito arrastadinho de acarinhar tudo, que desejo, um dia, poder experimentar com mais atenção. Um lugar que começou sua história numa antiga fazenda de mineração, cujo responsável era um inglês chamado Timothy. Senhor Timothy. Nhô Tim.

Depois um homem que tinha a Paz no nome sonhou aquilo tudo e comprou dos ingleses a fazenda que empregava o Senhor Tim. Bernardo Paz se desfez, com generosidade de pacifista visionário, de uma coleção incrível de arte moderna, para investir em arte contemporânea, ciente de que é preciso dar lugar ao novo, sempre, sem deixar de reconhecer a importância do que permitiu que o novo pudesse eclodir. Em 2014 a ousadia de Paz se fez notória e foi amplamente reconhecida quando, entre os dois nomes que fizeram o Brasil figurar num ranking que listava os 25 melhores museus do mundo, viu-se o de Inhotim.

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Me encanta a ideia de que possa haver no mundo um espaço onde quase mil hectares estejam dedicados a arte. Um espaço onde a interferência do homem e suas expressões artísticas vivem integradas, em reverência mútua e recíproca, com jardins, campos, vales e montes. Mas Inhotim não é só isso. Inhotim é permanente mudança. Desde a paisagem - que recebe as flutuações da natureza com passividade e alegria - até as exposições que fazem ondas, mudando sempre e acolhendo o novo, tudo ali se permite experimentar.

É impossível, para alguém como eu, falar sobre essas coisas de uma maneira formal. Quem desejar informações turísticas sobre Inhotim pode acessar dicas e guias  bem completos numa busca simples pela internet e é por isso que não vejo sentido em repeti-las aqui. Mas as experimentações de liberdade, o gozo de não ter amarras, o espírito de encontrar intercessões em linguagens múltiplas, isso é mais difícil de achar nessas buscas virtuais. O papo cabeça é mesmo para isso: permitir, dentre outras coisas, a experimentação das impossibilidades.

Os que já foram até lá podem não concordar com uma virgula do que eu disse. Graças a Deus! Que a unanimidade não nos use para perpetuar sua burrice. Para esta criatura sonhadora que vos tecla, poder sonhar Inhotim é uma experiência de libertação.

Foto: Paulo Carvalho

Foto: Paulo Carvalho



Fontes:
Fotos carinhosamente cedidas por Paulo Carvalho.



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UM CERTO SENHOR TIMOTHY Reviewed by Cris Quintas on 22:01 Rating: 5

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