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ANA E O FOGO


Você pode não acreditar. Está no seu direito inalienável de fazer questionamentos sobre qualquer afirmação leviana, mas ela escreve esta crônica nua, âmago exposto, nos lençóis da sua cama deserta. São quase três da manhã. O fogo, que estava ainda agorinha crepitando com força, baixou seu faixo num silêncio manso.
Lhe soou familiar? Acha que já leu isso antes? Semana passada Ana era água? Meu caro leitor, não seja ingênuo. Ana se permite tudos e nadas. 


Num dia, píncaros. No outro, profundidades abissais. É muito coerente. Seu único e irrevogável compromisso é com os ciclos. Seus ciclos. Eis aí o objeto da fidelidade que ela guarda e respeita. Os ignorantes acharão que coerência é virtude cristalizada, pétrea. Ela nem perde tempo para explicar a esses idiotas que a característica que define toda coerência genuína é a plasticidade. Não tem tempo a perder com imbecis. Eles não sabem quem é Heráclito. Nunca compreenderão, parados à beira de um rio, que o rio não é o mesmo a cada fração de átimo, que eles próprios não são os mesmos a cada fração de átimo. Citará, muito generosa, filósofos antigos só para rir das ignorâncias. “Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários.” Tsc, tsc, tsc. Que feio, Ana. Pshiu! Ouve a gargalhada de moleca dela?

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Ana não vale nada e por isso mesmo é nobilíssima. Adora superlativos mas tempera com pitadas de humildade a modéstia contra a qual ainda luta, resquícios dos velhos tempos em que era rata. Em ratos o fogo costuma arder com mais agressividade. Lambe os corpos sem piedade alguma, provocando queimaduras de terceiro grau e morte.

- Pobres ratos rotos.
- Ana, controle-se! Esses trocadilhos são tão vulgares, meu bem.
– Por que Chico pode e eu não?
– Porque.

É assim que a calo. Dando-lhe respostas que não admitem negociação.
Os rasos pensarão que Ana ferve por sexo. Reducionistas de merda. Ana ferve pelas raivas incautas às quais sucumbiu. Ana ferve pela falta de fleuma que muitas vezes lhe desnudou em praça pública. Ana calcina pelas coragens irresponsáveis, que findaram por lhe deformar. Ana se cobre de longuras em dia de calor para abafar seus gemidos. Ana não sabe ser sintética. Sua língua queima, muda, inflamada numa boca inquieta, que cala gritos em olhos vazantes. Eu vivo admoestando-a para que se controle. Ela me manda tomar no cu com minhas altissonâncias afetadas e sai falando por aí tudo o que lhe escapa. A censura de Ana é nenhuma. Quer mais é que se fodam os controlados. Olha-os com o desprezo de quem já passou dessa fase.

Ela gosta de fogo, sabe? Sopra suas brasas muitas vezes só para testar suas capacidades de ressurgir, brincando de fênix. Desistiu de fazer concessões a três por quatro. Suas entregas agora são seletivas e seguem as normas muito particulares dos códigos que ela mesma instaurou, os únicos aos quais se dobra. É capaz de cruzar a cidade para dar abraços de amor em fortalezas cansadas. É capaz de virar a cara para o pedido de socorro dos covardes. Não se impressiona com cenas. Faz ouvidos moucos para gritos cacarejantes. Se programou para sintonizar frequências muito precisas. Os barulhos e silêncios desinteressantes passam ao largo da arrogância honesta que ela construiu com muito esforço.

Um dia lhe perguntaram: você, que solta fogo pelas ventas, tem coragem de andar em brasas? Ela respondeu que não e, muito solidária com seus absurdos, respirou fundo e deu o primeiro passo. Enquanto caminhava no tapete rubro pensava nas misericórdias divinas, em flores, borboletas e abraços de mãe. Quando deu fé, tinha acabado o percurso. Viu seus pés em carne viva e a realidade desabou, meteoro rasgando o chão, mas ela tinha como unguento um teto e dois anjos. Porque o frio se dá conforme o cobertor, mas o fogo... ah!... O fogo só deve ser entregue aos confiáveis.


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ANA E O FOGO Reviewed by Cris Quintas on 07:00 Rating: 5

Um comentário:

Luiz Loreto disse...

Sigo essa menina chamada Patricia no Facebook e cada dia me deslumbro mais com o seu talento de escritora. Parabéns ao blog por deixar ainda mais belos os textos dessa Menina Amarela.

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