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HÁ GOSTO

Ventava. Ana deu graças à Deus pela passagem das águas. Agora era tempo de soprar as tristezas para longe. Andava tudo mofado dentro dela. Essas umidades compulsórias são cruéis e inegociáveis. Restringiam o ir e vir dos sentimentos, atrapalhavam o tráfego, engarrafavam as vias, fazendo o tempo correr em câmera lenta. Ana era lépida. Não aguentava muito tempo de slow motion moviments. Assertiva, detestava gerúndios. Queria decisões e as umidades não deixavam nada começar nem terminar. Umidade é espera.

Era de vento que ela gostava. Vento movimentando caminhos, ideias, pessoas. A vida revolvida em folhas que balançam para equilibrar o peso da água abundante retida nas copas. O problema de julho não eram as águas. De água Ana gostava. E muito. O problema eram os excessos de água e Ana não suportava excessos. Em agosto não. Em agosto o vento sopra e começa a secar as lágrimas crônicas das árvores e do mundo.

Desde criança ela gostava de pegar o vento. - Pai, baixa o vidro, e punha as mãos para fora da janela do carro, começando a brincadeira. Guerreava com o ar, que fugia por entre seus dedos, indomável como ela. Eram parceiros. Amigos mesmo. Por isso gostava tanto do mês de agosto: até as arvores ficavam radiantes naquele farfalhar melodioso. Festa na natureza. Festa para a natureza em ventania de Ana. Ana e o vento. Amigos que esperavam os Agostos para celebrar a liberdade.

Um dia ouviu dizerem: agosto, mês de desgosto. Ana riu. Gargalhou alto e forte, até lhe doerem os músculos todos. Ninguém entendeu nada, mas ela não perdia tempo explicando coisas a gente idiota. E era preciso ser muito imbecil para não enxergar no vento a varredura dos absurdos. Disse a ele que não se importasse com essas maledicências. Eram proferidas por tipos insensíveis e supersticiosos. O vento ficou feliz e flanou por agosto como um delicado origami azul de papel seda.

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Às vezes o vento se empolgava muito e assanhava os cabelos dela. Porra, vento! Deu um trabalho do caralho fazer essa trança de raiz! Ele dizia, muito grave: cabelo trançado é para dias de tristeza, Ana. Esse é o nosso mês. Solta essa merda desse cabelo e deixa tudo se embaraçar de novo. Ela obedecia, rindo da própria rigidez deslocada. Amava-o e queria agradá-lo no agosto que eles esperavam o ano inteiro para desfrutar. Então ele a envolvia num abraço longo e fazia cócegas nas orelhas dela com os fios soltos dos cabelos libertos.

-Temos um mês, Ana! Um agosto inteiro para nós.
-Você toda vez diz isso, mas me abandona impiedosamente nas entradas de setembro.
-Para que pensar no futuro? Você não sabe que eu volto todo ano? Nosso compromisso é inalienável, eterno. Não comece a sofrer antes do prazo. Venha. Viver é agora.
Então Ana deu-lhe o braço e veio passear novamente em agosto, sem dar ouvidos a essa gente desgostosa, que imputa maus augúrios a um mês generoso, sempre pronto a acariciar com vento quem não dá ouvidos a crendices. Há gosto no vento. Há muito gosto no vento.



Fontes
Imagem: google maps


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HÁ GOSTO Reviewed by Cris Quintas on 07:00 Rating: 5

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