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INDEPENDÊNCIA OU MORTE


Vocês vejam só como são as coisas. Eu, que planejava seguir escrevendo sobre escultores ao longo de setembro, fui pega de calças curtas pela força do feriado. Ainda mais um feriado bonito desse: dia da independência, repara. Imagina como uma data com esse apelo repercute em alguém como eu, caríssimo leitor dessas mal tecladas linhas, que tem na independência um dos pilares da vida.


Fui criada por uma mãe de vanguarda, que trabalhava e nunca se dobrou às exigências de subordinação do meu pai. Ele é uma figura massa mas totalmente impregnado dos ranços de sua educação machista. Não esqueça de que estamos no Nordeste de um país colonial falando de um cara que foi criado em engenhos por uma família extremamente conservadora. Mamãe foi uma guerreira. É ainda, porque segue casada com ele, apesar de tudo. Ah, o amor e seus segredos insondáveis...

Desde cedo ela me incumbia de coisas incomuns para meninas da minha idade e dizia, muito grave, coisas do seguinte naipe: se voltar para casa apanhada, leva outra surra quando chegar e nunca, nunca mesmo, nos deixava sair sem dinheiro para o caso de alguma necessidade imprevisível. Era o dinheiro para voltar, o passe da independência. Nada precisava ser tolerado em troca de carona. 

Quando desse na telha de vir para casa, o dinheiro do ‘rabo ensaca’ garantia o ir e vir e esse foi sempre o emblema da minha liberdade. Ir e vir. Repito porque, até hoje, essas noções me encantam. Para mim elas resumem e englobam todo significado de independência. Quem não puder sair e voltar, se e quando, como e onde, não desfruta de liberdade real. É claro que eu não sou idiota e sei perfeitamente que a liberdade absoluta é uma utopia, mas são as pequenas liberdades nossas de cada dia que fazem a vida valer a pena, né não?

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Lembro que quando pari meu primeiro bebê, embora tivesse vivido a vida inteira para esperar aquela efeméride, me senti extremamente sacaneada. Ninguém me falou do lado B da maternidade, das noites em claro, da exigência de disponibilidade total e absoluta. Quando Maria fez um mês, a médica me liberou para dirigir e eu lembro, de modo muito claro, da sensação esplendorosa que senti quando peguei meu carro e saí. Sozinha. Deixei minha filha de um mês em casa com o pai e fui ser independente por uma hora. Da série de inconfidências femininas mais constrangedoras que guardo no repertório, essa foi a que mais me arrasou: a maternidade não aboliu meus desejos individuais.

Durante muito tempo dei murro em ponta de faca e quis caber no padrão. Sentia culpas imensas por não ser exatamente como o esperado. Acontece que fui me dando conta de que eu era muito melhor nas relações quando podia respirar delas, quando me era dado o direito de alguma movimentação particular. Isso de encangar-me compulsoriamente com quem quer que seja me extenua. Toda e qualquer relação precisa de respiros para crescer forte e saudável. Até mesmo a relação com os meus filhos. Entender o conjunto unitário é prerrogativa para compreender as interseções.

Ir de sutiã e voltar sem ele. Ir calçada e voltar a pé. Ir só e voltar acompanhada. Ir acompanhada e voltar só. Vestir. Despir. Ser puta. Ser santa. Dizer não e sim. Mudar de planos. Voltar atrás, se arrepender, ter culhões para assumir os desejos e aceitar-se. Liberdade, até, de escolher a dependência, porque não?




Fontes:
Google imagens




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INDEPENDÊNCIA OU MORTE Reviewed by Cris Quintas on 07:00 Rating: 5

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