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O ANTIGO CORAÇÃO DO FUTURO


Impressões sobre Francisco Brennand e seu santuário.

É dentro da cidade, mas não parece.
A gente sai do caos e vai entrando num universo paralelo pela alameda que corta uma mata na várzea.

Várzea. Campina cultivada. Planície de grande fertilidade. Terrenos baixos e planos sem serem alagadiços que margeiam rios e ribeirões.

Para abrigar aquele homem era necessário que até mesmo o lugar fosse conceitualmente fértil.
Preferiu chamar seu ambiente de trabalho de oficina porque queria que o lugar favorecesse as relações horizontais, onde mestres e aprendizes colaborassem uns com os outros na construção das obras e onde as manifestações variadas da arte pudessem dialogar.

Sua oficina está situada onde antes existia a velha fábrica de cerâmica da família, que tem ascendência inglesa. Francisco, originalmente pintor, descobriu, numa de suas muitas viagens à Europa, que artistas importantes como Picasso, Gauguin, Matisse, Miró, e Gaudi, entre outros, utilizavam também a cerâmica para se expressar. Ele resolveu desconstruir o preconceito dos que ainda viam as obras em cerâmica como uma arte menor e aprofundou seus conhecimentos no manejo desse material, fazendo experimentos variados com diferentes temperaturas de queima, aliadas ao uso de esmalte. O barro sendo trabalhado pelo calor e dando origem à novos sentidos de vida. O fogo purificador da arte. A reprodução que faculta a eternidade. A criação nas suas expressões mais cruas. Totens, falos, sexo, fertilidade, ciclos.

Hoje, reconhecido como um dos maiores ceramistas do Brasil, é ainda visto por lá muitas vezes, entidade onipresente em seus domínios, barbas brancas e fartas emoldurando o rosto nobre.
Um silêncio respeitoso é a trilha sonora predominante do lugar, mas dentro da oficina se pode ouvir música erudita, cantos gregorianos e outras abstrações sinfônicas, além dos gentis monitores, sempre prontos a explicar o conceito das obras e das construções.

Há citações de autores famosos impressas em cerâmica, muito verde, água, movimento, vida, ovos, aves. Há intensidade em toda parte. Há as camadas da evolução de um artista generoso, que partilha, com quem desejar usufruir, a concepção do seu trabalho. Há uma pinacoteca incrível com quadros pintados por ele e um pequeno teatro. Há um restaurante. Há o rio Capibaribe e trilhas nos arredores. Pés de azeitona roxa. Cavalos pastando. Bambus. Nascentes. Lagos. Há as coisas que eu não descobri e nunca descobrirei. Há outras que descobrirei de outra forma em outras visitas. Aquele lugar foi feito para apreciações lentas, para ficar imerso o dia inteiro, entrar logo que abrir e sair só porque vai fechar, levando a sensação de que nada se esgotou e de que é preciso voltar de novo e de novo e de novo.

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Parece mesmo um lugar sagrado e é com esse respeito que os visitantes o percorrem. Sempre me chamou a atenção esse comportamento: de algum modo as pessoas que estão em ambientes impregnados de arte guardam um silêncio deferente durante a apreciação das obras.

“Aproximar a cerâmica do feitiço não é uma associação ocasional e sim uma realidade, embora uma realidade que me escapa, sobre a qual não tenho nenhum poder. Quando eu pinto, sou um artista oci­dental. Quando faço cerâmica, não tenho pátria; minha pátria é o abis­mo pelo qual vou resvalando sem saber o que encontrarei no fundo. Como tenho arrefecido os meus ardores, sigo planando sobre os desfi­ladeiros.” Francisco Brennand.

Às vezes as palavras, por mais minhas amigas que sejam, não dão conta de explicar sentimentos.

Até semana que vem.

SAIBA MAIS SOBRE A OFICINA DE BRENNAND.






Fontes: 
Google imagens




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O ANTIGO CORAÇÃO DO FUTURO Reviewed by Cris Quintas on 00:26 Rating: 5

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