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SOBRE A HORA, SOBRE O TEMPO.



Eu nunca, nunca mesmo, vou deixar de me impressionar com o desdobramento aleatório das coisas. A gente traça um plano, se organiza, estrutura uma ideia, mas, quando vai pôr em prática o que concebeu, vem o acaso e dá uma rasteira, dizendo, muito cheio de si: você não manda em nada. Aqui tem diretoria e sou eu que determino a maior parte das coisas. Não nos iludamos – somos vítimas do que precisa acontecer.



Depois de uma série de 4 contos catárticos em que Ana se desnudou aqui no papo cabeça, eu também me senti nua. Escrever pode ser tão violento com o escritor, às vezes, não sabe? Então, deliberadamente, escolhi escrever um pouco sobre outras expressões de arte e deixar a literatura um pouco de molho, ela descansando de mim e eu descansando dela. Uma represália? Por que não? Andávamos exaustas dos nossos embates semanais.

Disse a Cris, editora do blog: - tá rolando a exposição ABELARDO DA HORA 90 ANOS: VIDA E ARTE, aqui em Recife. Se a literatura me deixar em paz, na primeira semana de setembro eu escrevo sobre isso. E lá fui eu, muito disciplinada, no fim da tarde de um sábado lindo, para o centro, com uma luazona cheia amostradíssima surgindo na barra do cais, por trás do parque de esculturas que enfeita o horizonte no marco zero da cidade. Eu sabia que ia ser massa, mas não fazia nem a mais pálida ideia do que realmente acharia por lá.

Encontrei comigo menina, sentando naquelas mulheres imensas, de peitos fartos. A gente, que é daqui de Recife, acostumou-se com Abelardo feito quem se habitua à paisagem. Havia Aberlados espalhados pelos parques, no aeroporto, naquele que era o único shopping center da cidade há 35 anos atrás, em prédios públicos e privados. Sentávamo-nos nas esculturas, ora frias, ora quentes, na dependência de onde estavam expostas, ora em bronze, ora em concreto, embelezando a cidade. As imagens, as figuras, os desenhos, as expressões: tudo tão familiar, tão íntimo, que caminhar naquele salão de exposição foi como caminhar no tempo.

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É claro que, como boa bairrista, eu sabia que Abelardo da Hora, pernambucano de São Lourenço da Mata, região metropolitana do Recife, é considerado pela crítica especializada o maior escultor expressionista do Brasil e que, enquanto outras escolas se ocupavam em reproduzir a realidade, Abelardo cuidava de processar o que via para só então expressar suas impressões. Também sabia que seus trabalhos mostravam angústias nos olhos esbugalhados de fome e escassez, tristezas de mães carregando filhos doentes, cortejos fúnebres de miseráveis, palafitas, mangues, dores e injustiças. Nanquins, tintas e aguadas explicavam a alegria das brincadeiras do seu lugar, dos tipos colorindo as ruas, vendedores de caldo-de-cana e de pirulito, violeiros, passistas, maracatus, bumbas meu boi, mulheres mil. Mas só estando lá, imersa e adulta, entendi a generosidade e o domínio daquele homem sobre o movimento dos sentidos. Exuberância nos cabelos esvoaçantes, chutes a gol, dança. Sobriedade e quietude quando o que se exibe é a impossibilidade de reagir às desigualdades.

A adulta que eu sou hoje precisou encontrar a menina que eu fui para absorver melhor impressões que, de tão íntimas, se diluíram na constante presença. Pude sentir o tempo abrindo janelas para os sentimentos passados. Entrei na sala de exibição sozinha, com quarenta anos, e saí de lá com cinco, calçando minhas velhas botas ortopédicas, de mãos dadas com o meu pai. Atravessamos a rua e fomos tomar o velho sorvete de coco e cajá, na velha Frissabor do salesiano, enquanto cantávamos velhos frevos e ríamos de velhas histórias. Tudo por causa de Abelardo da Hora. Tudo por causa de Abelardo no tempo.







Fontes:
Fotos google imagem.



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SOBRE A HORA, SOBRE O TEMPO. Reviewed by Cris Quintas on 07:00 Rating: 5

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