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PERFUME DE GARDÊNIA


Às terças-feiras Arnaldo saía de casa todo esquematizado. Parava no lava-jato da esquina e entregava o opala 79 aos cuidados de Nogueira, semana passada o cromado das maçanetas estava mal polido veja bem que não é à toa que lhe dou essa gorjeta polpuda, e seguia para abrir a loja. Os clientes já sabiam que o expediente na casa de ferramentas encerrava uma hora mais cedo em dia de gafieira.

Antes que liberasse os funcionários a secretária lhe avisou que estavam prontos os sapatos de dona Nancy, é só passar e pegar, custou doze reais o conserto. Ele foi no barbeiro aparar os bigodes grisalhos, fazer a barba com navalha, ajeitar o cavanhaque e a costeleta. Depois comprou uma gardênia vermelha para a mulher, mandou encher o tanque do carro e, como o trânsito ainda estava tranquilo, desceu na padaria e escolheu sonhos para incrementar o café, ela adora sonhos com goiabada, bote esses aqui, que tem mais doce, não, esse não, esse.
No sobrado Nancy estava às voltas com os preparativos da noite. Estendeu na cama a calça e a camisa de linho engomadas do marido, cinto e sapatos brancos tinindo, a colônia preferida dele, cordão grosso de ouro junto com relógio de pulso na cabeceira. O vestido vermelho dançando na janela levava brisa, pendurado num cabide especial, Deus tomara que o sapateiro tenha ajeitado o meu salto, enquanto arrumava uma alternativa de sandálias caso o reparo que seu Messias prometeu para hoje não ficasse pronto. Na cozinha tinha sopa de feijão fumegando na panela, café fresco, rodelas de inhame com picadinho de charque e um suco de tamarindo na jarra de vidro cheia de gelo. Será que hoje ele traz pão doce ou pamonha? Ouviu a buzina e o motor do opala tomando a rua, pés e mãos frios, vinte e três anos e eu ainda gelo quando esse homem chega, escutou o molho de chaves abrindo a porta. Cheguei, Nega.
Depois de se arrumarem ele prendia a flor no cabelo da mulher, dava o arremate final, você nunca acerta, Cy, quando é você que ajeita, a flor não fica a noite inteira no penteado, deixe que eu faço. Fixava a gardênia atrás da orelha esquerda dela, assim, está lindo, vai ser a dama mais bonita do salão, e entravam, impecáveis, no opala.
A mesa de Arnaldo ficava no fundo mas tinha vista privilegiada para a pista redonda de tacos e madeira encerada que recebia os casais. Ele sentava, o garçom trazia a garrafa de whisky do clube já meiando e o isopor com gelo, quero comprar logo outra, Onofre, me veja uma cumbuca de amendoim, e se acomodava na cadeira para olhar as evoluções dos casais e a disposição dos músicos da orquestra vestidos em smokings fubentos no palco, cabelos empapados de gel, bochechas redondas brilhando o calor nas faces, vocais revezados por uma moça alta e um ruivo de vozeirão estrondoso que dominava o salão enquanto o som metálico dos sopros ditava o compasso da dança. Nancy nem sentava, tem certeza, meu bem, eu lhe ensino, dança é treino, você leva jeito, vamos, queria tanto que você dançasse comigo, mas Nega, você sabe que eu prefiro olhar, então ela dava um beijo no marido e entrava na pista. 
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Era a rainha da noite. Mesmo depois de tantos anos e algum peso acumulado, deslizava feito garça, botava no bolso as mais novas. Arnaldo via olhares desejosos lambendo a mulher, ela fazendo charme, quebrando os quadris, a fenda do vestido exibindo as pernas grossas, bem torneadas, essas meninas de hoje em dia são uns cibitos, Onofre, mulher boa tem que ter carne, repare Nancy, a gente chega vê as formas dela ondulando embaixo do vestido. Porque o senhor não dança com ela? Arnaldo ria. Sou uma tábua, meu filho, precisa ver como essa rosa fica murcha no dia em que me arrasta para o salão. Eu piso nos pés dela, só acerto muito mal o dois pra lá dois pra cá, a gente perde a noite, dá certo não, ela tem asas, fica linda voejando, veja, e olhava mulher rodopiar, senhora de si, de todos.
O coração de Arnaldo virava um tambor, a coceira gostosa do ciúme subindo na espinha feito vício de jogo, aquela mulher em erupção saltando de braço em braço, cavalheiros fazendo fila, ansiosos para dançar com a dama mais leve da pista, ela iluminando tudo, piscando os olhos, caindo na gandaia, os pés ágeis, pequenos, quase sem pisar o chão, gardênia impassível atrás da orelha adornando o rosto em chamas, orvalhada de suor perfumado, bamboleando, tira as sandálias, entrega ao marido, toma um trago, sussurra no ouvido dele olha que é tudo teu, Nego, e volta para o salão, aceita convites, quebra galhos, se espalha, o giro da saia consumindo os olhares, Arnaldo fumando cigarro, nuvem de fumaça borrando a mulher em brasa, mergulhada no prazer de se exibir para o seu homem.

Fim da noite Nancy se aproxima da mesa. As mãos imensas de Arnaldo lhe enxugam o rosto com um lenço muito alvo e trazem os cabelos dela para frente, esperando que calce as sandálias enquanto paga a conta. É um gigante. Percorre o salão de mãos dadas com ela, jogador exibido ostentando troféu, cumprimenta conhecidos com um maneio de cabeça, o relógio tilintando. Nancy lhe alinha os cabelos, lhe ajeita a camisa e o lenço do bolso, segurando a capanga dele com a idolatria estampada nos olhos delineados de cajal e sombras brilhantes, indo embora com o homem mais invejado da gafieira. Se deixa levar e diminui o passo para todo mundo ver seu dono, pequena, servil, sorriso orgulhoso nos lábios, aninha a cabeça no peito de Arnaldo e cheira o whisky dos suspiros longos, ele lhe fraquejando os passos com a voz grave e rouca no cangote. Agora vamos para casa, Nega, que quem manda nesse samba sou eu.


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PERFUME DE GARDÊNIA Reviewed by Cris Quintas on 19:01 Rating: 5

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