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MONÓLOGO DE AMOR E ÓDIO

Aquarela Patrícia Freire
No papo cabeça de hoje, Patrícia Freire traz um pequeno conto, cheio de amor, de ódio e de "nãos". Se você também quer saber para onde vai o ar que você respira. Leia e deleite-se!

Estêvão é um idiota, não entende nada. Quero que ele me abane, que pegue um abacate, abra, ponha mel e leite, mastigue, mastigue mas não engula, me beije e me dê o abacate na boca, feito uma índia velha cuidando de doentes, que faça uma trança nos meus cabelos e arremate com a fita roxa que está em cima da penteadeira. Queria saber para onde vai o ar que respiro, que não dá conta de acalmar meu sufoco. Respiro buracos negros. Tenho mil nãos entalados na garganta e um cansaço que mina os desejos, desejos fracos, chuvisco que evapora antes de molhar o chão. Sofro de ausências e meus lábios sorridentes são cobras traidoras. Sei rir mesmo estando em pedaços. Grande habilidade, o
fingimento.

Precisei pedir e só então Estêvão que me deu o abacate, penteou meus cabelos e me abanou com um leque espanhol. Ele obedeceu, feito um vira-lata, sem questionar, e eu tive vontade de cuspir-lhe a cara. Obedeceu mas não teve a iniciativa, só fez depois que eu pedi. Isso é amor?

Ilustração da artista Romena, Aitch.

 ilustração de Emma Hanquist 



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MONÓLOGO DE AMOR E ÓDIO Reviewed by Cris Quintas on 22:06 Rating: 5

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