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PAPO CABEÇA: BODEGA DO PERPÉTUO SOCORRO

Cavani Rosas
Sabe aqueles dias que você só precisa de um empurrãozinho pra ser feliz? Pronto! Nossa maravilhosa colunista no papo cabeça Patrícia Freire chegou com um conto pequenininho e delicioso e ainda ilustrado pelo escultor e desenhista Cavani Rosas, com quem eu tive a alegria de estudar desenho. Confiram e deliciem-se!

Bodega do Perpétuo Socorro
                                                                                   Patrícia Freire

Anzol, querosene, percevejo, ameixa em calda, aviamentos, papel de presente, alfenin, serrote, leite de rosas, velas: toda sorte de grandeza e miudeza. Para tira-gosto sardinhas, azeitonas e, às vezes, um queijo coalho curtido, já quase bom de não prestar. De vez em quando um tomava ousadia: isso tá estragado, dona Pilar. Ela dava um rabissaca e saía gelatinando as carnes, quem tiver achando ruim que cate seus cacarecos epegue o beco, era só o que me faltava, vagabundo exigente esquentando meus tamboretes, mas lhes limpava o vômito e dava sal de frutas por conta da casa quando via que o porre tinha motivações nobres.

Rubem chegava no começo da noite, sentava sempre na mesma mesa e só pedia pinga nos dias de vencimento, a regra era alcatrão. Bom pagador e avesso a encrenca, quase não falava: dizia as demandas nos olhos. Tinha olhos a deriva, que se perdiam no chão, nas paredes encardidas enfeitadas com retratos de Lúcio, filho morto de Pilar. Vez por outra ajudava-a no fim do expediente: empilhava cadeiras, recolhia cacos de vidros, baixava a porta de ferro e se despedia sem articular palavra, sumia no escuro costurando o meio-fio com os pés.

Noite dessas Rubem lhe pediu que embrulhasse uma água de colônia: ia visitar a mãe no interior. Pilar esmerou-se no pacote, fez cachos com a tesoura na fita de plástico. Depois de três dias entra na bodega, o pacote amassado do presente na mão, ela morreu faz três semanas, Dona Pilar, enterraram sem me avisar, fique pra senhora o perfume, tome, faço questão, os costumeiros olhos baixos ainda mais baixos, afogados. Pilar parou de lustrar os retratos do filho, se Lúcio fosse vivo teria mais ou menos a sua idade. Resoluta, enxotou os fregueses, baixou as portas de ferro. Acomodou Rubem no regaço, chegue, e abriu os botões do decote, tenho um jeito de diminuir essas saudades.



Fontes
Imagem: Cavani Rosas




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PAPO CABEÇA: BODEGA DO PERPÉTUO SOCORRO Reviewed by Cris Quintas on 00:37 Rating: 5

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