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O ANIVERSÁRIO DA ETERNIDADE É TODO DIA.


“Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. Eu estava saindo de uma festa,.
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com maiakoviski – seu criador. Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.”
Manoel de Barros BARROS, M. Ensaios fotográficos. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.



Foi esse meu primeiro contato com Seu Manoel. Fiquei paralisada, como quem leva baque duma árvore alta e descompassa o diafragma, puxando um ar que não vem. Foi lapada forte, dessas que tiram a gente do eixo, que tonteiam a pessoa. Faz muitos anos mas ainda me incomoda não ter sabido dele antes. Só adulta descobri Seu Manoel, um poeta imenso desses. Onde estava escondida essa criatura que me calou em meandros úmidos, tão íntimos, tão meus?  Foi como uma revelação as autorizações que ele trouxe: tome, menina, palavras para usar como bem entender.
Então fui saber dele, construir um lastro racional para essa intimidade que aconteceu tão rápido entre nós. Ele enfeitava a estante com Jabutis e APCAs, tinha vivido no exterior, feito curso de cinema e pintura em Nova York durante o ano em que viveu por lá, era comunista e louvado por intelectuais como o maior poeta brasileiro de todos os tempos mas escolheu a reserva: não frequentava círculos literários nem editoriais. Nos anos 60 se plantou no pantanal para criar gado e escrever poemas, só saindo de lá raras vezes e para voltar depressa.

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Essa semana ele fez 100 anos de vida e há dois está rebrilhando no céu. Mas em 2013 a Leya editou suas obras completas numa caixa linda com 18 livros e um projeto gráfico incrível que fez jus ao legado desse passarinho voadeiro sem idade certa. Desde então posso seguir com ele eternidade afora.

Obrigada, seu Manoel, e parabéns: o senhor cheira a ‘pra sempre’.


Box da obra completa de Manuel de Barros

desenhos de Manuel de Barros

desenhos de Manuel de Barros

Fontes :
Google imagem




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O ANIVERSÁRIO DA ETERNIDADE É TODO DIA. Reviewed by Cris Quintas on 10:06 Rating: 5

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