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SAUDADES FODIDAS

                                               
“Dormia a nossa pátria, mãe tão distraída,
sem perceber que era subtraída
em tenebrosas transações” 

-Tem visto Esperança?
-Não, meu filho. Faz tempo que ela não aparece.
Hércules virou a cabeça, crina acanhada, cascos inquietos ferindo o asfalto. Espichava os olhos grandes na terra batida da estrada, esperando encontrar no borrado que o calor fazia a imagem de Esperança.


-Tem certeza? A essa hora já era pra ela estar aqui não tem mais nem graça, dona Eulália.
-Pois nunca mais vi, meu filho, e agora vá, passe, você está me atrapalhando, dispare daqui, olha o quilo de chuchu, é dois, dois o quilo de chuchu, cebola é três, quem vai, quem vai, tudo fresquinho, sem carbureto, pode levar sem medo, freguesa.
Feirantes jogavam água nos maços de cheiro verde, tomates, pimentões coloridos, roletes úmidos de cana espetados em varetas de bambu, ingá, jaca debulhada. Hércules, de barraca em barraca, repetia a pergunta: alguém sabe de Esperança? Esperança deu o ar da graça por aqui hoje? Sabe dizer se Esperança apareceu? Onde essa criatura se meteu, por Deus do céu? Sol da moléstia no quengo e nada dela, zurrava baixo, nem via os pedaços jerimum estourados no chão, as cascas das provas de pinha que dona Alberice oferecia aos compradores, não tangia os maruins que lhe faziam festa no focinho.  Os olhos remelentos deitados no chão nem viram quando Consuelo chegou balançando as ancas, rabo trançado, fita nas orelhas, os dentes fortes abrindo as portas da boca, entre burro xucro, você não repara em nada, Consuelo dizia sem dizer.
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-Que é que tu tem hoje, Hércules? tás aí todo petisco, não quisesse as cenouras caídas, os bagos de uva passada no chão de dona Nén.
-Esperança.
- Que é que tem Esperança?
- Não veio de novo.
-Hércules, Esperança tá se ultimando, foi desenganada. Desde criança todo mundo sabia que ela não se criava.
-Mas a gente brincava tanto.
- Brincava, você disse bem. Num pretérito imperfeito. Não sei o que ela tinha demais que as outras não tem, um bicha desmilinguida daquela.
-Ela era bem apertadinha, Consuelo. Bem apertadinha. Boa de foder. E Hércules se agigantava na memória do ex-amor.


Fontes :
Imagens google


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SAUDADES FODIDAS Reviewed by Cris Quintas on 11:25 Rating: 5

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